As Máscaras que usamos

As Máscaras que usamos

 

Quando eu era criança comecei a perceber que haviam certos comportamentos que eram aceites e outros que eram condenados. Para conseguir receber o amor que pretendia, especialmente dos mais próximos, comecei a vestir as máscaras que achava que elas iam gostar. Lembro-me perfeitamente, como se fosse hoje, um dia em que estava a passar a ferro, e os meus pais, pensando que eu não os estava a ver, estavam abraçados um ao outro, vendo-me, e sentindo-se orgulhosos da filha que haviam criado… A partir desse dia, muitas vezes passei a ferro só para sentir essa energia de aceitação, mas sem qualquer prazer no que estava a fazer… Mas não foi só passar a ferro, muitas outras coisas fiz, á espera de receber aceitação e amor em troca, e quando não o recebia, revoltava-me, pois tinha feito o sacrifício de fazer algo sem prazer e sem vontade, e no fim não tinha recebido o que esperava…

E levamos a “vida” fazendo sacrifícios, á espera de recebermos algo em troca… Depois já não procuramos só o amor dos pais, mas dos amigos, conhecidos, namorados, chefes, etc… Tudo porque não nos amamos a nós mesmos, não nos aceitamos a nós mesmos, e continuamos a esperar que os outros nos amem e nos aceitem. Mas os outros também andam no mesmo jogo, os outros também querem receber, então vazio não consegue preencher vazio…

Eu usei tantas máscaras que cheguei a um ponto de não saber quem eu era…usava máscaras na escola, tentando agradar os professores e os colegas, usava máscaras com os amigos, tentando fazer parte do grupo, com os conhecidos, depois no trabalho, com o namorado, etc.

Quando fui internada e me foi pedido que largasse as máscaras, eu já não sabia o que estava por detrás da máscara…quem era eu afinal? Será que eu era a boazinha ou a mázinha? Será que eu era a vitima ou o agressor? Será que eu era a corajosa ou a medrosa?

No fundo, sempre que nos rotulamos de alguma coisa estamos colocando uma máscara, pois nós somos seres dinâmicos, não somos algo estático que se comporta sempre da mesma forma. Muito menos o exterior é estático… o exterior está sempre em movimento, sempre em mudança, assim como nós. Mas quando tentamos travar esse processo, entramos em sofrimento…

O que fazemos não pode ser um meio para atingir um fim, mas sim o fim em si mesmo – algo que fazemos com prazer. Sempre que fizermos algo a correr, ou só para mostrar os resultados, não foi para nós mesmos… Foi para mostrar algo aos outros…

E o automatizamos de tal forma que já nem somos conscientes de que o fazemos, ou porque o fazemos. Aprendemos que é assim. E sentimo-nos cada vez mais vazios ao procurarmos nos preencher fora…

A chave está em fazer tudo com prazer, e não para agradar ou para ser aceite.

Ajustar-me ás situações diárias não implica anulação de mim mesma, mas sim libertação de uma ideia pré-concebida de mim mesma.

É uma redescoberta do próprio.

Do Workshop AS MÁSCARAS QUE USAMOS