A minha grande vantagem

 

Há 9 anos atrás, quando me internei no Centro Internacional de Recuperação de Doenças Graves, a minha vida tinha chegado a um beco sem saída. Completamente desgovernada, atormentada pelos perigos de uma mente formatada ao belo prazer do sistema…. O meu primeiro pensamento ao acordar era “o que de mal vai acontecer hoje?” E iniciava-se aí um dia de sofrimento. Um após o outro, numa escala crescente, que me levou ao pânico… Para conseguir lidar com a “ideia” que eu tinha de mim, dos outros e do mundo, precisava claramente de drogas. De inicio, na adolescência, as drogas leves e o álcool resgatavam-me desse mundo criado, de terror… Quanto mais tempo passava, mais drogas eram necessárias (mais drogas leves, mais álcool, relacionamentos, comida, etc…). A vida reclamava o meu crescimento, mas eu estava petrificada com medo do que viria a seguir… Em adulta substitui as drogas leves e o álcool por drogas legais… os meus dias estavam contados… As benzodiazepinas eram, de longe, mais destrutivas e com maior poder de dependência do que qualquer outra droga, e quando quis largar, não consegui…

Os ataques de pânico já faziam parte da jornada… Ainda na Universidade, o medo tinha tomado conta do meu quotidiano. Primeiramente não queria sair de casa, com medo de todos os desafios e perigos que iria enfrentar… Só o percurso de casa á escola era um tormento, fora o resto do dia… Por fim, já nem em casa conseguia estar, pois o medo tinha tomado conta de todo o meu espaço.

Diagnosticada com depressão, pânico e bipolar, prometeram-me que tudo ficaria “normal”, apenas precisava de tomar benzodiazepinas para o resto da minha vida…

Que sistema é este que nos prepara para uma vida miserável, envoltos no terror? E o que se passa connosco que ainda achamos que isso é normal?

Podia dizer que foi da educação que recebi em casa e na escola, mas isso é apenas uma peça do puzzle, e a peça com menos importância… A peça maior está por detrás de tudo isso – um sistema criado apenas com vista na exploração do individuo, destituído de alma…

Mas o que é que o sistema tem a ver com os meus ataques de pânico?

Bem, tem tudo. O que me fazia entrar em pânico, procurar “alivio” nas drogas, era o que eu acreditava sobre mim, sobre os outros e sobre o mundo. A base de tudo – os conceitos, crenças, princípios… No fundo, aquilo que me haviam passado e que, obviamente, eu escolhi como sendo verdade.

Cada um de nós nasceu com uma missão – ser feliz; com um objetivo – evoluir.

Mas a mim tinham-me “ensinado” que o meu objetivo era tirar um curso para ter um emprego bem pago, ter uma casa, um carro, constituir família, enfim, ser alguém…

“Matar-me” a trabalhar, fazendo sacrifícios, poupar, poupar, poupar… e mais tarde reformar-me e aí usufruir, então, da vida…

E mais tantos outros conceitos e crenças, envoltos no medo e na culpa…

Nem foi preciso chegar a meio do caminho para constatar o resultado dessa conduta na minha vida… Bem visível: a minha ruína total…

Mas isso acontece com todos?

Não sei. Comigo aconteceu. E com muitos que eu conheço. E mais ainda: muitos deles continuam a viver no sofrimento porque, com a desculpa da normalidade, continuam a seguir as linhas com que foram orientados…

Somos seres espirituais a passar por uma experiência material, somos uma parte do universo/de Deus, e esta nossa experiência deveria ser envolta em riqueza, abundância, prosperidade, e não o contrário…

Quando fui internada mostraram-me um novo caminho. Este caminho, finalmente, fazia sentido para mim, e mais importante que tudo, fazia-me sentir bem… Bem comigo, bem com os outros, bem com o mundo e bem com Deus… Então não poderia ser mau, certo? Já não precisava das drogas para conseguir lidar com o exterior, passava cada vez mais momentos no bem-estar, e apenas voltava ao mau estar quando voltava a ver as coisas como via antes… Então, não podia ser errado, o caminho, certo?

Sempre me tinham dito que a maioria era certamente normalidade, mas aí eu descobri que a maioria vivia no sofrimento, na pobreza, na dúvida, na insegurança, e para mim isso não era normal…

A maioria usava drogas para conseguir lidar consigo mesmo, com o próximo e com o exterior. E ainda mais, cada um negava o consumo da sua droga e ainda criticava o próximo por ser drogado… Irónico… Mas uma das grandes características do adito: negação da doença.

Existe muita confusão relativa a este tema. Ainda se colocam rótulos como “drogado” em pessoas que consomem heroína, cocaína e outros químicos, mas os que andam encharcados em calmantes, psicóticos ou antidepressivos não são diferentes. Os que não conseguem largar um relacionamento destrutivo que os consome, não são diferentes… Os que usam a comida, o sexo, o jogo, a internet, para se alienarem ou para alterarem o humor, também não são diferentes…

Ainda se confunde dependência com vicio. Ainda se desculpa o consumo de drogas com as más companhias. Ainda se justifica com a sorte ou com o azar…

A Adição, ou dependência, não tem nada a ver com vicio, com azar, com as más companhias… Tem a ver com a forma como a própria pessoa se sente com ela mesma, com os outros, com o mundo e com o Universo/Deus.

E a forma como ela se sente relativamente a isso tem a ver com as suas crenças, conceitos e princípios.

Por isto, um programa de recuperação tem que se basear principalmente na mudança das crenças, além da desintoxicação física.

A Adição é uma doença de sentimentos e emoções, progressiva e fatal. Doença de sentimentos e emoções pois existe um desajuste entre o que a pessoa acredita e a realidade. Progressiva pois o grau de dependência aumenta no tempo. Fatal porque leva á morte.

 

A minha grande vantagem

Prende-se no facto de ter passado por todo este trajeto e saber de perto como funciona a doença. Poder passar a minha experiência e ajudar tantos outros que, como eu, viram as suas vidas desgovernadas.

 

O que é preciso para iniciar um novo caminho?

Primeiramente a pessoa tem que querer mudar. Tem que estar farto, de estar farto, do sofrimento.

Depois, pedir ajuda.

Depois, ter mente aberta, boa vontade e seguir sugestões.

Mente aberta a novas formas de ver e de agir.

Seguir sugestões sem julgar ou sem questionar. Se julgar ou tentar perceber vai ver através da mesma medida que o levou ao fundo do poço.

Boa vontade para seguir as sugestões.

Do Workshop: A VIDA É UMA FESTA