O caminho para sair do sofrimento

 

A minha infância e adolescência foram fortemente marcadas por uma rejeição a todos os acontecimentos que não eram de acordo com a minha vontade.

Sempre que acontecia alguma coisa que estava fora dos meus planos, o gatilho rejeição era pressionado, eu entrava automaticamente numa bolha que eu mesma tinha criado como “proteção” e começava o sofrimento… Filmes de como poderia acabar com aquela situação, pessoa, circunstância, passavam na minha mente. Filmes em como eu era injustiçada, e que ninguém me dava valor – a vitima – eram fortemente alimentados.

Eu achava que tudo exterior é que estava mal – os outros estavam mal, eram injustos, a vida era injusta, as pessoas eram más, etc…

Quando fui internada no centro Internacional de doenças graves, o meu dia-a-dia era preenchido de ataques de pânico, ansiedade, mal-estar, doença, sofrimento continuo, escuridão…

Eu achava que isso acontecia comigo devido ao que recebia do exterior, mas era precisamente o contrário: Eu estava assim porque negava tudo no exterior, julgava que tudo era mau e para meu prejuízo.

Toda a forma de sofrimento que possamos ter advém da nossa resistência/negação ao que está a acontecer. Quanto maior o grau de resistência, maior o grau de sofrimento.

Rejeitamos as situações, as pessoas, as circunstâncias, acontecimentos, ou seja, rejeitamos a vida, porque queremos que as coisas aconteçam á nossa maneira. Achamos que sabemos tudo e somos os donos da verdade…

O que não sabemos é que é exatamente aquilo que sabemos (ou achamos que sabemos…) que nos mostra essa perspetiva do mundo. O que eu acredito sobre o mundo não é o mundo – é apenas o que eu acredito…

Eu sei que criei uma bolha para me proteger da ideia que me tinham passado desse mundo hostil, onde tudo acontece por acaso e para meu prejuízo.

Da mesma forma que o soldado japonês Shoichi Yokoi, se manteve escondido na ilha de Guam, durante 27anos após a guerra com os Estados Unidos ter terminado. Mesmo com os esforços dos seus amigos, conhecidos, compatriotas, familiares, lhe dizendo que a guerra já tinha terminado, ele não acreditava, achava que era uma armadilha do inimigo para o apanhar…

Da mesma forma nos comportamos, quando continuamos a acreditar nesse mundo hostil…

O mundo não é assim: as coisas não acontecem por acaso – elas têm um propósito Divino.

Tudo o que acontece na nossa realidade acontece para nosso beneficio. A vida está sempre nos proporcionando experiências que nos tornam pessoas melhores, se as aceitarmos, em vez de rejeitarmos.

A vida envia-nos pessoas com as mesmas características que nós temos, para que possamos ver o espelho e nos tornarmos humildes…

A vida envia-nos “problemas financeiros” para que nos libertemos da ideia de que é o dinheiro nos traz segurança e nos sentirmos seguros sempre…

A vida envia-nos circunstâncias constrangedoras para que nos livremos da culpa, do medo, do arrependimento, da raiva, da vergonha, e vivermos na aceitação, alegria e no Amor…

A vida mostra-nos o caminho do crescimento interior…

Todos nós procuramos, através de meios diferentes, atingir a felicidade. O problema é que procuramos em todos os lugares, menos onde ela se encontre – dentro de nós.

Tudo que procuramos está dentro de nós. E todas as circunstâncias que a vida nos coloca é para que o descubramos.

A chave está em parar de rejeitar/resistir ao que estamos a receber. Não precisamos saber o porquê das coisas, só precisamos saber que é para nosso beneficio. Confiar, largar…

Sabemos que temos uma enorme tendência para o fazer, a repetição tornou esse processo automático, da mesma forma que aprendemos uma forma de fazer as coisas e agora temos que ajustá-la ás circunstâncias presentes.

Depois de tirar a carta de condução, um condutor deu-me um conselho, baseado na sua experiência: em retas e descidas, pões o carro em ponto morto, e assim poupas gasolina.

Pareceu-me bem, então depois de me sentir segura a fazer o ponto morto em descidas e retas, comecei a fazer em curvas, retundas, etc… Isso tornou-se de tal forma natural, que já nem precisava de pensar – automaticamente punha o carro em ponto morto.

Tive algumas experiências de sentir o carro derrapar – por fazer curvas em ponto morto… mas como era natural, eu nem entendia porque isso acontecia. Até que um dia levava ao pendura um condutor que me alertou para esse facto. Eu entendi. E ao tentar corrigir esse comportamento, deparei-me com o gatilho automático. Já passaram mais de 4 anos e ainda hoje me vejo, volta e meia, a colocar o carro em ponto morto, em situações em que não se ajusta…

É preciso treinar. E temos um ponto a nosso favor, pois já temos a experiência de que a repetição funciona!

O que fazer quando nos apanhamos a rejeitar/resistir ás situações, em vez de dançar com elas?

Rir é a melhor solução. Quando tomamos consciência de um comportamento antigo, que não se ajusta mais, podemos ser amorosos e gratos para connosco mesmos – porque estamos no processo de mudar algo que nos vai trazer mais serenidade. A culpa – o nos martirizarmos a nós mesmos, não vai fazer nenhuma mudança… mas aceitarmo-nos a nós mesmos vai…

Juntarmo-nos a pessoas ou grupos que estão no mesmo processo que nós vai ajudar a nos manter ligados ao que realmente importa.

 

Ferramentas:

 

Viver no presente: aí estamos atentos e podemos tomar decisões conscientes baseadas no que está a acontecer no momento. (Observar a respiração, observar os pensamentos).

Temos a oração da serenidade e a respiração profunda, para nos ajudar a voltar ao equilíbrio.

O que precisamos fazer é nos levantarmos mais uma vez do que aquela que caímos.

Elisabete Milheiro

Do WORKSHOP O caminho para sair do sofrimento