Porque tenho medo de dizer quem sou?

 

Porque tenho medo de dizer o que sinto? Falar dos meus medos? Exteriorizar os meus pensamentos? Porque tenho medo de tirar as máscaras e mostrar quem realmente sou?

Será que vão gostar de mim? Será que me vão aceitar tal como sou? Será que me vão julgar e criticar ou condenar?

Desde muito cedo comecei a usar máscaras. Usava uma máscara em casa, para que os meus pais gostassem de mim… Usava uma máscara na escola, para que os professores me dessem boas notas… Usava máscaras entre amigos, para que me aceitassem no seu grupo… Mais tarde, comecei a usar máscara no trabalho, para não mostrar a magoa que me ia no coração… Usava máscara com o namorado, para ser quem ele queria que eu fosse…

E cheguei um momento em que não soube mais quem eu era…

Quando quis tirar todas as máscaras, não me encontrei… Achei que tinha desaparecido… Afinal quem sou eu?

E sempre que algo que mexia comigo acontecia, logo eu ia buscar uma máscara que se ajustasse.

Se eu mostrar uma máscara, posso alterá-la, mudar quando eu quiser, mas, se eu mostrar quem sou, não há mais nada – só o que sou.

Agora sei que quando queria desistir da vida, não era porque queria morrer, mas por estar cansada de toda essa encenação, cansada de me tentar ajustar a um padrão que não era o meu, alguém que não era eu.

Mas ainda pior do que tudo isso, ainda era me martirizar a mim mesma por não corresponder ao que eu achava que os outros esperavam de mim…

No fundo, a vida em sociedade nos exige o uso de máscaras.

Fomos formatados para nos ajustarmos a um sistema robotico, tratados como peças a encaixarem nos seus devidos lugares…

Primeiro com a família:

– Se te portares mal não gosto de ti!

Depois com a escola:

– Se não te portares bem não tens boas notas!

Depois com os amigos:

– Se não fizeres assim não sou teu amigo!

Depois na profissão:

– Se não seguir esta linha não pode exercer.

Ou com o emprego:

– Se não fizer assim é despedido!

Depois com o parceiro/marido/namorado:

– Se não fores assim não gosto de ti!

E desta forma ficamos a pensar que temos que ser algo para que gostem de nós, para sermos aceites… e assim começa o sofrimento…

Quando eu era criança chamavam-me burra – eu ainda não sei bem porquê… – eu sentia-me muito mal com isso, e tantas vezes, as malabarices que eu fiz para não dizer:  EU NÃO SEI para que não me voltassem a chamar burra. Um dia, o meu grupo de amigos resolveu fazer um jogo que consistia em perguntas de geografia, história, matemática, cultura geral. Só para não me fazerem perguntas que eu não soubesse responder, eu disse que não gostava daquele jogo e recusei-me a jogar.

Já na secundária, dentro do meu grupo de amigos haviam mais regras do que fora dele… era preciso ter nascido com uma data de características para poder entrar nesse grupo, e era preciso que ouvíssemos as mesmas músicas, gostássemos dos mesmos cantores e por aí vai…  Certas bandas ouvidas pelo grupo eram tão más que eu tinha que as ouvir vezes sem conta até que aquilo começasse finalmente a entrar no ouvido… Estas não eram regras implementadas, mas sim implícitas, pois quem não seguisse era gozado, ou simplesmente não pertencia ao grupo…  Mais tarde, já na faculdade, já fora desse grupo, tinha ainda uma amiga em comum, e ela confessou-me que nessa altura ouvia uma banda de música que nunca tinha dito a ninguém, por vergonha e medo do que fossem dizer. Adivinhe-se, eu também ouvia essa banda, e nós rimos as duas…

Mas isto são apenas dois exemplo de muitos que se passaram. Porquê? Porque tinha medo de não ser aceite. Porque me ensinaram que o amor é condicional, e que eu tinha que corresponder a um padrão para ser aceite…

Mais ainda – tinha que ser alguém… Quantas vezes ouvi isto: “tu não és ninguém! Só quando tiveres casa, marido, carro, filhos, uma boa profissão e um bom emprego, é que vais ser alguém!”

Tentei ser alguém, mas no fim só me senti vazia… cada vez mais vazia…

Quanto mais tentava mostrar quem eu era, mais longe estava da verdade…

Eu não sou uma peça de um puzzle, não sou um robô, sou um ser divino e criativo, flexível e harmonioso.

Eu não sou perfeita, eu não sei tudo, eu não sou sempre a mesma.

Eu não sou o que os outros querem que eu seja.

Eu não sou quem os outros pensam que eu sou.

Eu não sou o que eu penso que os outros querem que eu seja.

Eu sou. Apenas.

 

Elisabete Milheiro