Se nasceu com asas, o seu destino é voar

 

Nunca fui apologista de colocar pássaros em gaiolas; desde criança que gostava de ver os animais livres e já adolescente decidi comprar um periquito, ensinei-o a andar lá por casa, e por vezes até o levava à rua pousado no meu ombro. A gaiola servia apenas para ir comer e dormir, as portas estavam sempre abertas. Acabou por ter um fim trágico, como todos os outros que tive depois…

Hoje vejo que apenas tinha ampliado a sua gaiola para um tamanho maior… Eu queria que eles fossem livres, mas não os queria deixar ir embora, queria-os perto de mim – o paradoxo. Se os amasse verdadeiramente queria que fossem felizes da forma que eles nasceram para ser: Um pássaro, se nasceu com asas, o destino dele é voar em liberdade.

O pior é que não fazemos isso só com os animais, fazemos uns com os outros… Há pessoas que os seus animais de estimação têm gaiolas mais amplas que os próprios filhos. Queremos que aqueles de quem dependemos emocionalmente estejam sempre presentes, desejem o mesmo que nós desejamos, sonhem o mesmo que nós sonhamos, e ainda morram depois de nós para não sofrermos com a perca…

Ensinamo-los que o mundo é perigoso, e que apenas a família os protege das ameaças exteriores. Ensinamo-los assim para que eles tenham medo, muito medo, e não saiam dali, e ali permaneçam para sempre, para não nos sentirmos sozinhos. Mas no fundo a solidão está sempre presente. De alguma forma sabemos que nada daquilo faz sentido, mas continuamos manipulando os outros dizendo-lhes que é para o seu bem…

Porque agimos assim? Dizemos que é amor, mas será que acreditamos mesmo nisso?

O que faz a andorinha? Cria os seus filhos e quando já os sente autónomos expulsa-os do ninho – vai á tua vida! Vai em liberdade e sê o que quiseres ser!

Ah, mas eles são animais, animais irracionais, dizemos nós… E nos autodenominamos animais racionais…

Temos muito a aprender com as andorinhas…

 

 

Cito aqui a definição de Amor do Padre Lauro Trevisan:

Hoje em dia, fala-se de amor, canta-se o amor, proclama-se o amor, prega-se o amor, promete-se amor, mas, normalmente, estão a referir-se a um amor que fica na casca, que não chega ao cerne. Este tipo de amor periférico pode ser chamado de amor mate­rial. Trata-se apenas de uma parcela do amor e nem é a principal. Mas, no mais das vezes, é confundido com o amor essencial. Como produz resultados limitados, às vezes confusos, outras vezes so­fridos, ainda outras vezes envolto na turbulência do ódio, da má­goa e da vingança, é comum pensar-se que o amor não é a essência da vida e que, por vezes, nem é coisa boa. É preciso distinguir entre amor material e amor pleno.

Amor pleno é o todo do amor e, quando alcançado, produz um estado paradisíaco. Aqui pode receber o nome de felicidade e de reino dos céus.

O amor material, por melhor que seja, não chegou à essência, muito menos à plenitude.

Para ser verdadeiramente amor, deve ser essência, expressar a substância vital. Esta é a novidade.

Quando Jesus falou desse amor, começou por dizer: «Um NOVO mandamento eu vos dou.» O amor.

O amor essencial era desconhecido no tempo de Jesus e, se não exagero, continua desconhecido ainda hoje.

(…)

O conhecimento e uso da Lei do Amor inaugurará a nova hu­manidade. Nesse dia, cumprir-se-á o que diz a escritura:

Então o lobo habitará com o cordeiro, e o leopardo deitar-se-á ao lado do cabrito; o novilho e o leão comerão juntos, e um menino os conduzirá. A vaca pastará com o urso, e as suas crias repousarão juntas; o leão comerá palha como o boi. A criancinha brincará na toca da víbora e o menino desmamado meterá a mão na toca da serpente. Não haverá dano nem destruição em todo o meu santo monte, porque a terra está cheia de conhecimento do Senhor, tal como as águas que cobrem a vastidão do mar.

(Is, 11, 6-9)

 

Elisabete Milheiro