Foto de Myles Tan (Unsplash)

A Inteligência

A inteligência não é algo que seja adquirido; ela cresce dentro de nós, é inata. E intrínseca à própria vida. As crianças não são os únicos seres inteligentes; os animais e as árvores também o são à sua maneira. É claro que todos eles têm tipos de inteligência diferentes, visto que as suas necessidades também diferem, mas hoje em dia é um dado adquirido que toda a vida é inteligente. A vida não pode existir sem inteligência; estar vivo é sinónimo de ser inteligente.

Porém, o Homem encontra-se num dilema pela simples razão que não só é inteligente, como tem consciência da sua inteligên­cia. É algo de único no ser humano, é o seu privilégio, a sua prerrogativa, a sua glória, mas pode transformar-se muito facil­mente na sua agonia. O Homem tem consciência de que é inteligente; e essa consciência activa traz-lhe problemas. O primeiro proble­ma consiste no facto de dar origem ao ego.

O ego existe apenas nos seres humanos e começa a crescer a par do crescimento da criança. Os pais, as escolas, a universidade, todos ajudam a fortalecer o ego pela única e simples razão que o Homem teve de lutar para sobreviver, e a ideia transformou-se numa fixação, um profundo condicionamento inconsciente de que só os egos fortes podem sobreviver na luta pela vida. A vida pas­sou a ser uma mera batalha pela sobrevivência. E os cientistas ain­da tornaram isso mais convincente com a teoria da sobrevivência do mais forte. Deste modo, ajudamos todas as crianças a desenvolve­rem egos cada vez mais fortes, e é aí que reside o problema.

À medida que o ego se torna forte, começa a rodear a inteligên­cia como uma espessa camada de escuridão. A inteligência é luz, e o ego é escuridão. A inteligência é muito delicada, e o ego é muito duro. A inteligência é como um botão de rosa, e o ego como uma rocha. E se quisermos sobreviver, dizem – os ditos sábios -, temos de ser fortes, invulneráveis. Temos de nos transformar numa cidadela, numa cidadela fechada, para não ser possível que nos ataquem do exterior. Temos de nos tornar impenetráveis.

Mas depois ficamos fechados. Depois começamos a morrer em termos de inteligência, porque a inteligência necessita do céu aberto, do vento e do sol para crescer, para se expandir, para fluir. Para se manter viva, ela precisa de um fluxo constante; se estagnar, vai-se transformando lentamente num fenómeno inerte.

Não deixamos as crianças permanecerem inteligentes. Para começar, se forem inteligentes passarão a ser vulneráveis, serão delicadas, abertas. Se forem inteligentes, poderão ver muitas falsi­dades na sociedade, no Estado, na Igreja, no sistema educativo. Tornar-se-ão rebeldes. Serão indivíduos; não se deixarão intimi­dar facilmente. Podemos esmagá-las, mas não podemos escraviza­das. Podemos destruí-las, mas não podemos obrigá-las a ceder. Num certo sentido, a inteligência é muito suave, semelhante a um botão de rosa, mas noutro sentido tem a sua força própria. Porém, essa força é subtil, não é grosseira. Essa força é a força da rebe­lião, de uma atitude de não cedência. A pessoa não está disposta a vender a alma.

Se observar as crianças, não me perguntará – verá a inteli­gência delas. Sim, elas não têm conhecimentos acumulados. Se quisermos que elas tenham conhecimentos acumulados, então não pensaremos que são inteligentes. Se lhes fizermos pergun­tas que dependam da informação, elas não parecerão inteli­gentes. Mas se lhes fizermos perguntas verdadeiras, que não tenham nada a ver com informação, que exijam uma resposta imediata, veremos que são muito mais inteligentes do que nós. É claro que o nosso ego não nos permite aceitar este facto, mas se conseguirmos aceitar, isso ajudará imenso. Isso ajuda-o e ajuda os seus filhos, pois poderá aprender muito com eles se conseguir ver a sua inteligência.

Embora a sociedade destrua a inteligência, não o pode fazer totalmente; ela limita-se a encobri-la com muitas camadas de infor­mação.

E é essa a função da meditação: levar-nos ao mais fundo de nós. È um método de escavar no nosso ser até ao ponto em que chegamos às águas vivas da nossa inteligência, em que descobri­mos a nascente da nossa inteligência. Depois de voltar a descobrir a criança dentro de si, e só então, compreenderá por que razão saliento repetidamente que as crianças são verdadeiramente inte­ligentes.

A mãe estava a preparar o pequeno Pedro para ir a uma festa. Quando acabou de o pentear, endireitou-lhe o colarinho e disse:

Vai, filho. Diverte-te… e porta-te bem!

Vá lá, mãe! – respondeu o Pedro. – Por favor, antes de eu sair, decida se quer uma coisa ou a outra!

Estão a perceber? A mãe disse: “Diverte-te… e porta-te bem!” A questão é que não é possível fazer as duas coisas. E a resposta da criança tem um valor enorme. Ela diz: “Por favor, antes de eu sair, decida se quer uma coisa ou a outra. Se me deixar divertir-me, não me posso portar bem; se quiser que me porte bem, não me posso divertir.” A criança percebe perfeitamente a contradi­ção; mas esta talvez não tenha sido nítida aos olhos da mãe.

Um transeunte pergunta a um rapaz:

Meu filho, podes dizer-me que horas são?

Claro – responde o rapaz -, mas para que serve? O tempo está sempre a mudar!

Puseram um novo sinal de trânsito à frente da escola. Dizia: “Abrande. Não Mate um Aluno!”

No dia seguinte, havia outra placa por baixo desta, escrita com uma caligrafia infantil: “Espere pelo Professor!”

O pequeno Pierino vem da escola e chega a casa com um grande sorriso nos lábios.

Olá, meu querido, pareces estar muito feliz. Gostas da escola?

Que parvoíce, mãe – responde o rapaz. – Não devemos con­fundir a ida com o regresso!

Enquanto se dirige lentamente para a escola, o rapazinho vai a rezar: “Meu Deus, peço-Vos que não me deixeis chegar tarde à escola. Peço-Vos, meu Deus, fazei com que chegue à escola a horas…”

Nesse momento, escorrega numa casca de banana e desliza al­guns metros pelo passeio. Endireita-se, olha para o céu com ar abor­recido e exclama:

Pronto, pronto, Deus, não é preciso empurrar!

A jovem professora escreveu no quadro negro: “Não diverti-me nada durante todo o Verão. “A seguir, perguntou às crianças:

–  Qual é o erro desta frase, e como deve ser corrigida? O pequeno Ernie gritou da última fila:

Arranje um namorado.

Um rapazinho está a fazer um teste no psicólogo.

O que queres ser quando cresceres? – pergunta o médico.

Quero ser médico, pintor ou lavador de janelas! – responde o rapaz.

Confuso, o psicólogo pergunta:

Mas… não tens muita certeza, pois não?

Porquê? Tenho a certeza absoluta. Quero ver mulheres nuas!

O pai estava na sala a contar histórias aos filhos a seguir ao jantar.

O meu bisavô lutou na guerra contra Rosas, o meu tio lutou na guerra contra o Kaiser, o meu avô lutou na guerra de Espanha con­tra os Republicanos e o meu pai lutou na Segunda Grande Guerra contra os Alemães.

Ao que o filho mais novo exclamou:

Bolas! O que é que tem esta família? Não conseguem dar-se com ninguém!

A inocência

Fonte: 
Osho, O Livro da Criança – Uma Visão Revolucionária da Educação Infantil, Pergaminho, 2004